Autor: Leonardo Rodrigues Tupinambá1
Algumas perguntas simples paradoxalmente demandam respostas complexas, não por necessariamente conterem enigmas ou trotes dissimulados, mas porque sua mera formulação se presta a descortinar camadas de significado que desafiam o senso comum, misturando um toque de inesperado àquilo que se aparentava como óbvio. Assim foi quando o amigo Edil Gomes, que dispensa apresentações, repassou-me, gentilmente, uma questão para reflexão e explanação, qual seja, o motivo por que em certas moedas o número quatro, pelo sistema de algarismos romanos, é grafado como IIII em vez de IV, constatação que gera certa inquietude na numária nacional tanto pela curiosidade em si quanto pelo fato de ocorrer em algumas peças portuguesas e hispânicas reutilizadas ou recunhadas em território brasileiro. Segue uma explicação, construída, é bem verdade, em vários níveis interpretativos, mas que nem por isso tem a pretensão de esgotar o assunto, servindo, quando muito, para direcionar certas nuanças de seu entendimento.
- Aquilo que chamamos na contemporaneidade de “sistema de numeração romano” é resultado de uma longa evolução do modelo efetivamente utilizado na Roma Antiga, tendo tomado a atual forma apenas por volta do Renascimento (período de transição cultural, artística e científica entre a Idade Média e a Idade Moderna, abarcando lapso temporal que vai do século XIV ao XVI) e se massificado com a invenção da prensa de tipos móveis (criada por Johannes Gutenberg, por volta de 1450, na cidade de Mainz, Alemanha).
- O sistema romano propriamente dito remonta aos etruscos, civilização pré-romana da Península Itálica cujo auge ocorreu por volta do século VI a.C. O sistema etrusco era totalmente aditivo (sem subtrações) e trazia os numerais escritos da direita para a esquerda. Ademais, em que pese sua correlação posterior com letras do alfabeto latino, os símbolos numéricos etruscos tiveram por nascedouro os entalhes, em traços retilíneos, deixados como marcas de contagem nas varas (cajados) usadas por pastores da região. Significa dizer, a título de amostragem, que o caractere V para o número 5 não descende da letra V (v em maiúscula), mas, em verdade, de dois traços retos que convergem na base, porquanto, após quatro traços verticais (I), vinha um traço duplo em transversal (V), assim como o décimo corte era representado por uma cruz enviesada (X). Pontue-se, para acentuar ainda mais a autonomia primal do sistema com as letras latinas, que os etruscos sequer falavam latim e sim o etrusco, uma língua não indo-europeia considerada isolada, e que usavam um alfabeto derivado do grego.
- O sistema romano propriamente dito (“puro”) não tinha regras fixas para escrever os numerais exceto sua inscrição da esquerda para a direita, preferia o princípio aditivo ao subtrativo (isto é, a soma era anteposta à subtração), tinha vários algarismos diferentes daqueles hoje difundidos e até mesmo múltiplas representações de um mesmo algarismo. O número 5, por exemplo, podia ser traduzido de três formas distintas (V, ∧ e U), ao passo que o número 1.000 tinha também heterogêneas representações, mas nenhuma delas correspondia visualmente a um M (caractere surgido na Idade Média).
- O princípio subtrativo, cujo propósito é expressar valores através da diferença entre um montante maior e um menor, era bem conhecido dentre os romanos, contudo sua utilização era pouco comum, quase sempre restrita ao uso no final de inscrições para poupar espaço, em textos informais e no calendário (haja vista que eles contavam os dias de frente para trás utilizando marcos de referência em três dias especiais). Afora isso, sua implementação era bastante irregular, sendo notável que tendiam a escrever o número 9 como IX, mas evitavam usar IV para o número 4, melhormente retratado como IIII. Uma especulada justificativa seria que o IV era a abreviação de IVPITER (Júpiter), principal deus do panteão romano (versão romanizada do Zeus grego), de tal sorte que evitar a forma seria uma maneira de respeito, de reverência, algo que corresponderia, em boa medida, ao mandamento cristão de não utilizar o nome da divindade em vão com assento bíblico em Êxodo 20:7.
- Se a variedade da escritura dos algarismos entre os romanos já era grande, na Idade Média a situação ficou ainda mais fértil, talvez até caótica. Isso porque a ignorância e o isolamento, pechas da época, fizeram com que o sistema romano tivesse um número incontável de variantes: deturpações caligráficas dos algarismos mais tradicionais, introdução de novos símbolos para os mesmos algarismos e uma efusão de novas regras para a escritura dos numerais. Foi somente no século IX, com a criação do sistema de ensino de Carlos Magno, rei franco da Dinastia Carolíngia e primeiro Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, considerado o “Pai da Europa” pelas ações de unificação europeia, e principalmente com o Renascimento, que as atividades matemáticas voltaram a ter alguma forma de uniformização. Outrossim, foi na Idade Média que o princípio subtrativo gradativamente angariou popularidade.
- O relógio de sol (ou gnômon) foi o primeiro marcador de tempo para além da sombra humana e já era empregado pelas civilizações mesopotâmica e egípcia. A utilização dos algarismos romanos em relógios de sol, por sua vez, data dos anos 700 a. C., sendo que nestes o 4 era representado por IIII e o 9 por VIIII, justo pela prevalência do sistema aditivo de contagem.
- Os primeiros relógios mecânicos com ponteiros surgiram na Idade Média, sendo o mais antigo ainda existente datado de 1392 e sito na Catedral de Somerset, Inglaterra2. Como a popularização do princípio subtrativo foi gradativa, até os anos de 1800 era predominante nos relógios de ponteiros a utilização do IIII como 4, passando a predominar a forma IV depois desse período. A manutenção do IIII em relógios modernos implicaria assim no resgate ou manutenção de uma tendência clássica, numa tradição que resistiu às mudanças de estilos e de materiais. Outras explicações seriam o aspecto estético e o religioso. O aspecto estético sedimenta-se na ideia de conforto visual ocasionada pela utilização do IIII ao invés do IV, de tal maneira que o relógio adquiriria uma simetria na qual o uso dos algarismos I, V e X ficaria perfeitamente dividido em seu mostrador radial e no início de suas horas. Noutras palavras, as primeiras quatro horas seriam representadas pelo algarismo I (I, II, III e IIII), as próximas quatro representadas pelo algarismo V (V, VI, VII e VIII) e as quatro derradeiras pelo algarismo X (IX, X, XI e XII). O aspecto religioso menciona o desconforto de que uma abreviação que remetia a um deus pagão fosse utilizada em relógios de construções cristãs. No Brasil, um modelo bem difundido de relógio que utiliza o numeral IIII é o da Estação da Luz, em São Paulo, surgido junto com o icônico prédio atual cuja inauguração deu-se em 1o de março de 1901.
- Como a Península Ibérica ficou sob domínio romano de 218 a. C até o século V d. C., não causa espécie que o sistema numérico românico tenha se infiltrado e perdurado na Espanha e em Portugal, fazendo parte de documentos, inscrições, registros e moedas até a paulatina substituição de seu uso mais geral pelo padrão universal do presente (indo-arábico)3.
- Certos monarcas europeus tinham a superstição de que sua posição de linhagem em seu título real, notadamente quando transcrita em peças oficiais de grande difusão, como moedas, não deveria ser expressada com base no princípio subtrativo, sob pena de atrair maus augúrios, de expressar fraqueza e até mesmo descompasso de poder em relação aos seus antecessores e sucessores. A crendice teria nascido na França, sendo mais comumente associada ao final do século XIV e ao monarca Carlos V4, que sequer era o quarto de sua linhagem, mas, ainda assim, entendia o sinal “IV”, até em relógios, como ominoso. Essa mesma crendice aparece por vezes também atrelada ao soberano francês Luís XIV.
- No caso específico da moedagem de Carlos IV da Espanha em que seu nome aparece gravado como CAROLUS IIII, embora não se possa descartar totalmente o predito viés crendeiro e a opção pela mantença da tradição aditiva, soma-se a circunstância de que parte das peças foi batida num período transacional de reinados, tanto que em muitas, principalmente as cunhadas ainda no século XVIII, o título de um rei (sucessor) aparece contornando a efígie de outro (antecessor), mas também a maior facilidade de se adequar, na matriz de cunho, o molde de III para IIII.
- Carlos IV ou CAROLUIS IIII, rei da Espanha de 1788 a 1808, era avô materno de D. Pedro I, imperador do Brasil de 1822 a 1831, figura que ao ascender ao trono português, em 1826, o assumiu, curiosamente, com o título de Pedro IV.
- Ainda no que tange ao Brasil interessa acentuar que moedas de D. João IV, monarca de Portugal de 1640 a 1656, com a grafia IOANNES IIII, foram autorizadas para uso no Brasil com carimbagem (com e sem coroa) modificativa do valor.
- Em suma, pelo sistema romano propriamente dito e pelo sistema romano medieval, podia-se chegar ao número 4 pelo princípio aditivo ou subtrativo observando-se duas regras simples. Primeira, algarismos com valor menor ou igual posicionados à direita devem ser somados ao algarismo de valor maior. Segunda, algarismos com valor menor que estão posicionados à esquerda deverão ser subtraídos do algarismo com valor maior. Nada obstante, o progresso do modelo fez a preferência pela construção aditiva ser substituída pela subtrativa, máxime quando do surgimento da regra proibitiva de que um mesmo algarismo romano fosse repetido lado a lado mais de três vezes. A padronização para a notação subtrativa, por outro lado, trouxe dois benefícios bem práticos: compactação e clareza. Compactação porque permitiu representações mais curtas e eficientes dos números (IV tem dois símbolos ao passo que IIII tem quatro). Clareza porque afastou a confusão visual que poderia ocorrer com longas sequências de algarismos repetidos, tornando a leitura mais simples, rápida e inequívoca. Por conseguinte, a forma IV foi relegando a forma IIII a momentos históricos precisos.
Moral da história, com a devida vênia ao raciocínio de Machado de Assis externado na máxima “o algarismo não tem frases, nem retórica”, tem-se que o algarismo pode até não ter frase, mas nem por isso deixa de ter retórica, sendo, circunstancialmente, linguagem visual apta à transmissão de determinadas ideias.



FONTES:
https://www.math-only-math.com/roman-symbols.html
https://pt.wikipedia.org/wiki/Numeração_romana
http://www.mat.ufrgs.br/~portosil/histo2e.html
https://blog.kukos.com.br/por-que-em-alguns-relogios-o-numero-4-romano-aparece-como-iiii/
https://museum-seiko-co-jp.translate.goog/en/knowledge/trivia02/?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc
https://www.saintgermainbrand.com.br/blog/posts/por-que-os-relgios-usam-iiii-em-vez-de-iv-para-o-nmero-4-7e74f54ac960/
LISTA DE IMAGENS:
Figura 1: Acervo fotográfico do autor.
Figuras 2 e 3: Plataforma Numista. Acessível em : https://pt.numista.com/.
NOTAS:
- Promotor de Justiça, escritor, membro da Sociedade Numismática Maranhense e da Sociedade Numismática Brasileira. ↩︎
- O primeiro relógio mecânico do mundo surgiu na China, em 725. Os relógios mecânicos europeus são séculos mais tardios, sendo os mais antigos de que se tem notícia os desenvolvidos na abadia de Saint Albans, Inglaterra, durante a década de 1330, bem assim no mosteiro de Pádua, Itália, entre 1348 e 1364, estruturas estas, todavia, que não mais existem, só restando descrições detalhadas da construção. Mercê disso, o relógio da catedral de Salisbury, Inglaterra, é considerado o relógio mecânico mais antigo da Europa em funcionamento, inclusive por contar com a maioria das peças ainda originais. Tal relógio, contudo, não tem mostrador e nem ponteiros, apenas controlando a batida dos sinos em intervalos regulares. ↩︎
- O sistema numérico indo-arábico (de origem indiana, mas difundido pelos árabes), além de introduzir o conceito de zero, trouxe a noção de valor posicional (unidades, dezenas e centenas) de maneira que a representação de qualquer número, pequeno ou grande, passou a ser mais simples e prática. Noutras palavras, a facilidade que o sistema oferece é a de que um mesmo numeral, a depender de sua posição no número, assume valores diferentes. Um exemplo com o número 4 pode afigurar-se esclarecedor: em 54 ele vale 4 unidades, em 546 ele vale 4 dezenas e em 1.400 ele vale 4 centenas. ↩︎
- A historiografia registra inclusive um interessante episódio sobre o monarca que, em 1370, encomendou o primeiro relógio mecânico público para instalação na torre nordeste do “Palais de la Cité”, residência real à época (que mais tarde se tornaria a Conciergerie). Na feita, Carlos V da França fez a recomendação específica de substituição do número 4 da forma IV para a IIII. O relógio, que começou a funcionar em torno de 1371-1372, foi projetado e instalado pelo relojoeiro alemão Henri de Vic. A iniciativa de ter um relógio público no palácio real foi um símbolo de afirmação da autoridade régia e de sua emancipação do controle eclesiástico sobre a marcação do tempo (através do toque dos sinos das igrejas). O relógio original foi substituído em 1585 por um modelo mais elaborado que passou por restaurações significativas ao longo dos anos, incluindo uma grande restauração em 2012. ↩︎







