Autor: Gilberto Fernando Tenor1
Dom Pedro II, o segundo e último imperador do Brasil, nasceu em 2 de dezembro de 1825, completando nesse ano seu bicentenário de nascimento. Foi uma das personalidades mais marcantes da história nacional. Seu reinado se estendeu por quase meio século, representou um período de estabilidade política, crescimento econômico e notável desenvolvimento cultural e científico. Sua trajetória esteve intimamente ligada à consolidação do Estado brasileiro, à abolição da escravidão e à transição para a República. Faleceu aos 66 anos em 5 de dezembro de 1891, exilado em Paris. Foi sepultado em Lisboa e seus restos mortais foram trasladados para o Brasil em 1921.

Infância e Ascensão ao Trono
Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, nasceu no Rio de Janeiro. Era filho do imperador Dom Pedro I e da imperatriz Dona Maria Leopoldina da Áustria. Com apenas um ano e meio, perdeu a mãe, e aos cinco anos seu pai abdicou do trono brasileiro para retornar a Portugal, onde se tornaria Dom Pedro IV.
Com a abdicação do pai, o pequeno Pedro tornou-se imperador sob tutela de regentes, dando início ao chamado Período Regencial (1831–1840). Essa fase foi marcada por disputas entre liberais e conservadores e diversas revoltas regionais, como a Cabanagem, a Sabinada, a Balaiada e a Revolução Farroupilha. Durante esse período conturbado, o jovem príncipe recebeu uma educação exemplar, orientada por renomados tutores, que o prepararam para governar um vasto e complexo império.
O temor de desintegração do país levaram a sua maioridade, em 23 de julho de 1840, com apenas 14 anos, foi coroado imperador. Nos primeiros anos de governo, Dom Pedro II dedicou-se a restaurar a ordem e consolidar o poder imperial. Com habilidade política, promoveu a pacificação das revoltas internas e buscou equilibrar as forças liberais e conservadoras. O império consolidava-se como uma monarquia constitucional, e Dom Pedro II passava a ser visto como um símbolo de unidade nacional, o Brasil viveu o auge do reinado marcado por modernização, expansão econômica e crescente prestígio internacional. Em 1850, foi promulgada a Lei Eusébio de Queirós, que extinguiu oficialmente o tráfico de escravos. Esse marco legal coincidiu com o avanço da cafeicultura, que se tornaria a base da economia brasileira. O imperador incentivou também a imigração europeia, o desenvolvimento de infraestruturas como ferrovias, portos e telégrafos, e os primeiros passos rumo à industrialização.
Dom Pedro II envolveu-se em importantes conflitos internacionais, consolidando o prestígio do Império. O Brasil participou da Guerra do Prata (1851–1852), ao lado do Uruguai, contra o ditador argentino Juan Manuel de Rosas. Mais tarde, travou a Guerra do Paraguai (1864–1870), o maior conflito da América do Sul, que terminou com a vitória da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) sobre o Paraguai. Embora vitoriosa, a guerra deixou profundas marcas econômicas e sociais, além de fortalecer o Exército como força política. Na numismática, especificamente na medalhística, esses conflitos foram responsáveis pela necessidade de criação de várias medalhas oficiais.
A partir da década de 1870, o império começou a enfrentar sérias crises que enfraqueceram suas bases políticas. Conflitos entre o Estado e a Igreja Católica emergiram quando bispos brasileiros foram punidos por aplicarem sanções a maçons, contrariando o poder civil. O episódio desgastou as relações entre o clero e a monarquia.
A Queda do Império e o Exílio
Com o desgaste político e o avanço das ideias republicanas e positivistas entre militares, a monarquia se enfraqueceu rapidamente. Em 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República, depôs Dom Pedro II e instaurou um governo provisório. O imperador aceitou o fim do regime com dignidade e serenidade, evitando qualquer resistência armada. Partiu com a família para o exílio na Europa, levando apenas objetos pessoais e livros. Ao deixar o Brasil, declarou: “Guardarei do meu país a mais saudosa recordação.”
Exposição e seu papel na numismática
Para celebrar o centenário de sua morte, foram reunidos várias peças do acervo sorocabano “Juracy Tenor”, que relembram a trajetória de Dom Pedro II como imperador do Brasil para montar a exposição durante o XXIX Congresso Brasileiro de Numismática realizado de 11 a 13 dezembro no Hotel Nacional Inn jaraguá – SP.
A mão moldada de Dom Pedro II

Uma das peças em exposição é a mão moldada em bronze do Imperador Dom Pedro II de 1841. Uma tradição medieval da monarquia francesa retomada no século XIX por Napoleão Bonaparte, a Mão da Justiça foi também incorporada ao rito do Império do Brasil, tornando-se uma das insígnias da monarquia brasileira durante a coroação do soberano. A escultura traz o sinete com as Armas do Império no dedo anular, foi moldada pelo escultor Marc Ferrez, a partir da mão direita do próprio imperador com seus 15 anos. Poucas dessas são conhecidas e grande parte se encontram em museus com itens imperiais.
- Sorocabano, numismata e filatelista, presidente Emérito e Diretor de Operações da SNB, Acadêmico e Pesquisador Histórico. ↩︎







