Análise do reaproveitamento do núcleo no 1 Pice da Índia Inglesa e do ensaio brasileiro de moeda furada não emitido
Edil Gomes1
Recentemente, ao navegar por publicações na plataforma Facebook, deparei-me com um conteúdo sugerido, possivelmente resultado dos algoritmos que direcionam informações com base nos interesses do usuário. Tratava-se de uma publicação do The Royal Mint Museum em comemoração ao “Dia do Pi”, a qual despertou particular interesse pelo conteúdo.
Na ocasião, celebrava-se o denominado “Pi-e”, considerado a menor moeda de ensaio do acervo do museu, cuja concepção revela uma solução técnica singular no contexto da cunhagem monetária. Segundo a publicação, em 1945, o governo da Índia solicitou à Casa da Moeda de Bombaim o desenvolvimento de uma moeda de valor ainda inferior à já existente peça perfurada de 1 Pice. Em resposta, os técnicos propuseram, em curto espaço de tempo, uma alternativa engenhosa: o reaproveitamento do disco metálico removido do núcleo da moeda de 1 Pice para a produção de uma nova unidade monetária, denominada “1 Pie”.
Tal iniciativa estava alinhada a um princípio recorrente na política monetária da época, qual seja, a necessidade de manter o valor intrínseco do metal inferior ao valor facial da moeda. No entanto, apesar da viabilidade técnica, a reduzida dimensão da peça, aproximadamente 10,5 mm de diâmetro, comprometeria sua usabilidade prática no cotidiano. Em razão disso, o projeto não avançou para a fase de emissão, permanecendo restrito ao estágio de ensaio monetário.
A moeda de 1 Pie, cunhada exclusivamente em 1945, durante o reinado de George VI, era composta em bronze, apresentando peso aproximado de 0,67 g e alinhamento do tipo medalha. No anverso, destaca-se a coroa imperial britânica ocupando a porção central, acompanhada da legenda “INDIA”. O reverso apresenta o ano de cunhagem e o valor facial e elementos ornamentais laterais, a flor de lótus e a rosa, símbolos recorrentes na iconografia monetária da região. A peça não possui serrilhado no bordo.


Em contraste, a moeda de 1 Pice das Índias Britânicas da qual se originava o material reaproveitado, teve ampla circulação entre os anos de 1943 e 1947. Trata-se de uma moeda perfurada, com diâmetro de aproximadamente 21,32 mm, peso em torno de 2 g e espessura média de 1 mm. Sua produção ocorreu em diferentes casas da moeda do Império Britânico, incluindo unidades localizadas em Calcutá e Bombaim (Índia), Pretória (África do Sul) e Lahore (atual Paquistão), sendo identificáveis por marcas específicas conforme o local e o ano de cunhagem.

O ensaio da moeda furada no Brasil
A análise dessas peças remete diretamente ao ensaio monetário brasileiro de 1918, no qual se projetava a introdução da primeira moeda furada destinada à circulação no país, iniciativa que permaneceu restrita ao campo experimental. Tal proposta inseria-se em um contexto de reorganização do meio circulante, sendo concebida como uma unidade de menor valor, destinada a substituir as emissões da série MCMI.
O elemento central do projeto, a perfuração no disco metálico, possuía uma justificativa funcional. Considerando que moedas de baixo valor tendem a apresentar dimensões reduzidas, o furo permitiria aumentar o diâmetro da peça sem acréscimo significativo no volume de metal empregado, favorecendo sua identificação tátil e visual pelos usuários. Dessa forma, buscava-se conciliar economia de material com maior praticidade no uso cotidiano. A peça apresenta diâmetro de 15,5 mm, proporção que reforça essa intenção de equilíbrio entre custo e funcionalidade.
No anverso, observa-se a presença de ramos de café e tabaco ornados por flores, atados em sua base por uma fita, formando uma grinalda que emoldura os elementos centrais. No campo interno (enxergo), encontra-se a abreviação da unidade monetária “Rs” (réis), acompanhada, na porção superior, do valor facial “20”. Nota-se ainda, à direita e em posição inferior, o monograma do gravador João da Cruz Vargas, responsável por produção monetária posterior, como as moedas da chamada “série da Fortuna” (1924–1930), nos valores de 500 e 1000 réis. Nessas emissões, o artista também empregou motivos semelhantes, como ramos de oliveira e flores em composição estética semelhante à observada no presente ensaio, evidenciando certa continuidade estilística em sua obra.

Dessa forma, a análise dessas tentativas de emissão permite compreender que a numismática transcende o estudo dos objetos efetivamente circulantes, alcançando também o domínio das ideias, dos experimentos e das soluções técnicas que, por diversas razões, não se consolidaram. O reaproveitamento do núcleo do 1 Pice na produção do 1 Pie, no contexto da Índia Britânica, revela uma engenhosidade técnica notável, ao passo que os ensaios de moedas furadas, tanto no cenário indiano quanto no brasileiro, evidenciam os limites impostos por fatores como funcionalidade, economia de recursos e aceitação pública. Assim, ainda que não tenham sido oficialmente emitidas, tais peças assumem papel relevante como testemunhos materiais de um processo contínuo de adaptação, experimentação e inovação na história monetária.
Fontes de consulta:
The Royal Mint Museum
Numista (catálogos numismáticos internacionais)
- Associado da SNB, numismata e filatelista, designer gráfico e escritor. ↩︎







